No centenário de nascimento de Zé Mariani, a família reúne memórias de sua trajetória familiar, profissional, acadêmica, política, esportiva e social.
No dia 2 de agosto de 2026, completam-se 100 anos do nascimento de José Antônio Mariani, conhecido em Andradina como Zé Mariani e, entre familiares e amigos, também como Zezinho. Nascido em Nuporanga (SP), em 2 de agosto de 1926, construiu em Andradina uma trajetória marcada pelo trabalho, pela vida pública, pelo ensino, pelo esporte, pelas amizades e, sobretudo, pela família.
- Os irmãos Mariani reunidos na varanda da casa de Dr. Augusto Mariani, no final de 1963 ou início de 1964, durante a comemoração de sua eleição para prefeito de Andradina. Identificados na foto: Pedro Mariani Neto (1), Romeu Mariani (2), Elisiário “Lalo” Mariani (3), José Antônio “Zé” Mariani (4), Vasco Mariani (5), Alfredo Mariani (6) e Dr. Augusto Mariani (7). Também estavam presentes Dr. Cesário Valério, Olívio Montefusco, Elisaldo e Walter, primos da família.
- Professor José Antônio Mariani, paraninfo de turma, discursa durante solenidade de entrega de certificados da Escola Técnica Rui Barbosa, em Andradina, na década de 1970. Também participaram da cerimônia João Esteves, Walter Ramalho, diretor da instituição, Décio Gava e o delegado Edson Monteiro de Barros.
- Zé Mariani, ao centro, de terno cinza, sendo homenageado por alunos da FIRB, na década de 1980.
- Carnavais de Andradina, entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980. Zé Mariani, fantasiado de Nero, e sua esposa Maria da Glória P. Mariani, a Maroca, em momentos de descontração e comemoração durante os tradicionais festejos carnavalescos da época.
- Zé Mariani em papo descontraído com João Esteves no ABA, na década de 1970.
- Equipe dos Gordos no tradicional Gordos x Magros de 1983. Zé Mariani, de camiseta azul-clara e boné, foi o goleiro da equipe. O evento também ficou marcado pelas aparições de Didi, seu inseparável cachorrinho preto, que chegava a entrar em campo durante as partidas.
- Família Mariani reunida em julho de 1987. Da esquerda para a direita: Eduardo, Zé Mariani, Maria da Glória (Maroca), Augusto, André e Toninho. Um registro da família unida.
- Da esquerda para a direita: Eduardo, Toninho, Augusto e André, reunidos em julho de 2024.
Raízes italianas e a chegada a Andradina
José Antônio Mariani era o caçula de 13 filhos de Pedro Mariani Júnior e Graziella Evangelisti Mariani, ambos nascidos na Itália. Entre seus irmãos estava o Dr. Augusto Mariani, que se tornou prefeito de Andradina e exerceu o cargo entre 1964 e junho de 1965, quando faleceu precocemente em decorrência de doença.
Foi a convite do irmão Augusto que Zé Mariani chegou a Andradina. A memória do Dr. Augusto Mariani também permaneceu na cidade por meio de homenagens como a Escola Estadual Dr. Augusto Mariani e o CECAM: Centro Esportivo Cultural e Assistencial Augusto Mariani. Em Andradina, Zé Mariani estabeleceria suas próprias raízes e construiria uma história profundamente ligada ao município.
Chegou a Andradina no final de 1960, já casado, com os filhos Eduardo e Toninho, que nasceram em Ribeirão, e estabeleceu-se na cidade. Os filhos Augusto e André nasceram em Andradina, também na década de 1960.
Um registro familiar do final de 1963 ou início de 1964 mostra os irmãos Mariani reunidos na varanda da casa do Dr. Augusto Mariani, poucos dias após sua eleição para prefeito de Andradina.
Da Cooperativa de Crédito à administração da Santa Casa
Economista e contador, Zé Mariani trabalhou, em 1962, como gerente regional da Cooperativa de Crédito de Andradina, participando diretamente da vida econômica da cidade em um período de forte desenvolvimento regional.
Na década de 1970, sua trajetória passou a estar fortemente ligada à Santa Casa de Andradina. Zé Mariani assumiu funções de administrador e responsável pela contabilidade da instituição, trabalhando diretamente com o então provedor Antoninho Moura Andrade e com as religiosas que atuavam na Santa Casa. Segundo as memórias da família, tinha amplas responsabilidades administrativas e contábeis, participando de decisões ao lado da provedoria e das freiras que integravam o cotidiano da instituição naquele período.
Zé Mariani e o histórico título do Andradina Futebol Clube
Na campanha do Campeonato Paulista da Quarta Divisão de 1965, cuja histórica decisão ocorreu no início de 1966, Zé Mariani era diretor do Andradina Futebol Clube, o tradicional “Foguete da Noroeste”, que conquistou o título e garantiu o acesso à Terceira Divisão.
Na histórica decisão, disputada em campo neutro, em Araraquara, contra o Transauto, de São Caetano, Zé Mariani participou diretamente daquela jornada. Viajou em sua Rural Willys, levando cinco jogadores da equipe e seu filho Eduardo.
A decisão entrou para a história. Depois do empate no tempo normal e de sucessivas prorrogações, o gol que deu o título ao Andradina saiu aos 208 minutos de partida, fazendo daquele confronto um dos mais longos já registrados no futebol. O autor do gol histórico foi o atacante conhecido como Mazola, cujo nome verdadeiro era Hélio Duran.
Assim, Zé Mariani fez parte de um dos capítulos mais extraordinários da história esportiva de Andradina, acompanhando de perto uma conquista que marcou definitivamente a trajetória do clube.
A educação: Escola Técnica Rui Barbosa e FIRB
A experiência profissional de Zé Mariani também chegou às salas de aula. Na década de 1970, esteve ligado à Escola Técnica Rui Barbosa, em Andradina. Um registro de solenidade de entrega de certificados mostra o professor José Antônio Mariani como paraninfo da turma, discursando diante de alunos, professores e autoridades da cidade.
Sua trajetória no ensino prosseguiu nas Faculdades Integradas Rui Barbosa (FIRB), onde participou da formação superior de gerações de estudantes de Andradina. A família preserva fotografias da década de 1980 em que o professor Mariani aparece sendo homenageado por seus alunos.
Vida pública: vereador de Andradina
Entrou no MDB no início da década de 1970, quando Franco Montoro era uma das principais lideranças do partido.
Sua participação na comunidade também alcançou a política. José Antônio Mariani exerceu mandato de vereador na Câmara Municipal de Andradina durante a legislatura de 1977 a 1982. Sua memória permanece no município também por meio da Rua Vereador José Antônio Mariani.
Depois das sessões da Câmara Municipal, Zé Mariani tinha um ritual simples e muito lembrado pela família: passava pelo OK Bar, onde tomava uma cerveja e saboreava o tradicional misto-quente, do qual gostava especialmente. Era também mais uma oportunidade para encontrar conhecidos, conversar sobre a cidade e manter o contato próximo com as pessoas.
Carnaval, clubes e a vida social de Andradina
A presença de Zé Mariani na vida social de Andradina ficou marcada também pelos carnavais do ATC – Andradina Tênis Clube. Em vários deles, ao lado de médicos e amigos da cidade, participou de um grupo carnavalesco no qual se fantasiava de Nero. As apresentações fizeram sucesso nos tradicionais carnavais do clube e o grupo conquistou diversos troféus.
O episódio revela outra característica de Zé Mariani: apesar das responsabilidades como economista, contador, administrador, professor e homem público, mantinha uma personalidade extrovertida, participativa e muito ligada à convivência social de Andradina.
Especialmente na década de 1980, era presença frequente no Empório Vila Rica, um de seus pontos preferidos para encontrar amigos, conversar e acompanhar a vida da cidade. Entre uma cerveja e uma caipirinha, participava das longas e descontraídas rodas de conversa que faziam parte de seu cotidiano.
O Zé Mariani que gostava de gente
Talvez algumas das melhores lembranças de Zé Mariani não estejam em documentos oficiais, mas na memória daqueles que conviveram com ele. Morava na Rua Santa Terezinha, próximo ao estádio, entre as ruas Presidente Vargas e Pereira Barreto. Era comum sentar-se diante de casa, muitas vezes ao lado de uma caixa de laranjas, e conversar.
Quem passava acabava parando. Alguns estacionavam a motocicleta, outros paravam o carro e havia ainda os pedestres que interrompiam o caminho simplesmente para conversar alguns minutos. Era uma característica marcante de Zé Mariani: comunicativo, agradável, bem-humorado e de amizade fácil. A calçada da residência da família acabava se transformando, informalmente, em um pequeno ponto de encontro.
Palmeiras, futebol e uma aposta inesquecível
Palmeirense apaixonado, Zé Mariani acompanhava sempre que possível os grandes jogos realizados em Andradina. Uma das histórias que os filhos guardam aconteceu em 1977. Zé Mariani fez uma aposta bem-humorada com o então delegado seccional de Andradina, Dr. Décio Angelotti, corintiano.
Se o Corinthians fosse campeão paulista, Zé seria envolvido em uma bandeira do Corinthians; caso contrário, Décio seria envolvido pela bandeira do Palmeiras. O Corinthians conquistou o histórico título paulista de 1977 e chegou a hora de o palmeirense cumprir a promessa. Havia, porém, um problema adicional que tornou a história ainda mais divertida: Zé Mariani tinha aproximadamente 1,80 metro e 140 quilos. Para envolvê-lo, a bandeira corintiana precisava praticamente ter o tamanho de um lençol. E a aposta foi cumprida.
Gordos x Magros: Zé no gol e Didi em campo
Na década de 1980, Zé Mariani também participou ativamente do tradicional Gordos x Magros, evento esportivo e de confraternização que reunia personagens conhecidos de Andradina. Foi um dos organizadores e, em 1983, entrou em campo como goleiro da equipe dos Gordos.
Zé tinha ainda um companheiro bastante conhecido: Didi, seu pequeno cachorro preto, que o acompanhava em muitas ocasiões. Nos jogos, Didi também acabava entrando em campo e, para diversão dos presentes, ajudava à sua maneira os Gordos, atrapalhando os adversários do time dos Magros.
Imprensa e vida comunitária
Zé Mariani também colaborou como colunista de O Jornal da Região, de Andradina, acrescentando à sua trajetória a participação na imprensa local. Sua vida esteve igualmente ligada a instituições e espaços de convivência da cidade, entre eles o Lagoinha Country Clube e o Iate Clube Urubupungá, além da já marcante participação no Andradina Futebol Clube.
Maroca e os quatro filhos
José Antônio Mariani casou-se com Maria da Glória P. Mariani, carinhosamente chamada de “Maroca”. O casal teve quatro filhos: Eduardo, nascido em 1954; José Antônio Mariani Filho, o “Toninho”, em 1955; Augusto Mariani Sobrinho, em 1965; e André Mariani, em 1966.
A última mensagem
José Antônio Mariani faleceu em 14 de maio de 1989, aos 62 anos. Era Dia das Mães. Naquele mesmo dia, deixou escrita na lousa que ficava na cozinha da casa uma frase que se tornaria uma de suas últimas mensagens à família:
“O maior presente para uma mãe é a felicidade dos filhos.”
Pouco tempo depois, Zé Mariani sofreu um infarto fulminante e veio a falecer na presença do filho André. A frase escrita naquela lousa, justamente no Dia das Mães, ganhou um significado especial para Maria da Glória, a ‘Maroca’, e para os quatro filhos. Décadas depois, permanece entre as lembranças mais marcantes daquele último dia.
Sua partida ocorreu ainda às vésperas de outro acontecimento importante para a família. Apenas seis dias depois, em 20 de maio de 1989, foi realizado o casamento do filho Augusto.
Cem anos depois
No centenário de seu nascimento, os quatro filhos reúnem fotografias, documentos e principalmente suas próprias memórias para reconstruir a trajetória do pai e preservar a lembrança de um personagem que participou intensamente da vida de Andradina.
Professor, economista, contador, administrador, vereador, participante da imprensa, do esporte e da vida social da cidade, José Antônio Mariani deixou, acima de tudo, a lembrança de um homem comunicativo, de amizade fácil, dedicado à família e profundamente integrado à comunidade em que escolheu viver.
Homenagem da família
Ao recordar o pai e sua ausência em seu casamento, Augusto Mariani Sobrinho, filho de Zé Mariani, presta sua homenagem:
“Pai, você partiu poucos dias antes do meu casamento. Senti profundamente sua ausência naquele momento tão importante da minha vida. Hoje, no centenário do seu nascimento, agradeço a Deus pela vida que o senhor me deu, pelos valores que me ensinou e por tudo o que fez por nossa família. Continuo levando seu nome, seus ensinamentos e sua memória comigo. Que Deus o acolha em Sua paz eterna.”
Fontes da memória familiar
Eduardo Mariani; José Antônio Mariani Filho (Toninho); Augusto Mariani Sobrinho; e André Mariani.













